O comércio eletrónico em Portugal mantém uma trajetória positiva em 2026, mas entra numa fase mais exigente. Já não basta vender online. As empresas estão agora concentradas em melhorar a experiência de entrega, reduzir fricções nas devoluções, investir em Inteligência Artificial e responder a consumidores que valorizam conveniência, rapidez, previsibilidade e sustentabilidade.
Estas são algumas das principais conclusões do Barómetro CTT e-commerce — Resultados da 1.ª vaga de 2026, realizado em março, com base nas respostas de 47 especialistas e empresas ligadas ao retalho online em Portugal, incluindo marcas, marketplaces, operadores logísticos, prestadores de serviços e empresas de diferentes setores de atividade.
O e-commerce português cresceu em 2025 e deverá continuar a crescer em 2026
A primeira grande conclusão do estudo é clara: o e-commerce continua a crescer em Portugal.
Segundo o Barómetro CTT, 85,1% do painel indica que o setor onde a sua empresa atua registou crescimento das vendas online em 2025 face a 2024. Mais relevante ainda: 53,2% dos participantes reportam crescimentos superiores a 10%.
Apenas 10,6% dos inquiridos indicaram uma descida das receitas online no período analisado. O ponto médio do intervalo de estimação do crescimento das vendas online em 2025 situa-se nos 10,5%.
Para 2026, o otimismo mantém-se. 83% dos especialistas esperam que as vendas online continuem a crescer no primeiro semestre de 2026, face ao período homólogo de 2025. O crescimento estimado para este período situa-se nos 9,5%.
Há, no entanto, um dado que deve ser lido com prudência: 12,8% do painel prevê uma descida das vendas online no primeiro semestre de 2026. Ou seja, o mercado cresce, mas não cresce de forma igual para todos.
O peso das compras online já é relevante em vários setores
Outro dado importante é o peso que o canal online já representa no total das compras.
De acordo com o estudo, 51,1% dos painelistas indicam que o peso das compras online no total das compras nos setores onde atuam é superior a 15%. Por outro lado, 23,4% referem que o peso das compras online ainda é inferior a 7%.
O ponto médio do intervalo de estimação do peso do comércio eletrónico no painel situa-se nos 14%.
Esta leitura confirma uma realidade importante: o e-commerce já não é apenas um canal complementar. Em muitos setores, é uma componente estrutural do negócio. Contudo, ainda há diferenças relevantes entre categorias, maturidade digital das empresas e hábitos de compra dos consumidores.
Entregas no próprio dia estabilizam, mas não convencem todos os operadores
O sameday delivery, ou entrega no próprio dia, continua a ser um tema relevante, mas o estudo mostra uma certa estabilização.
Segundo o Barómetro, 53,2% dos membros do painel já disponibilizam ou planeiam oferecer entregas no próprio dia. Esta opção surge como resposta às necessidades do mercado e como fator de diferenciação face à concorrência.
No entanto, 46,8% dos painelistas não têm planeado vir a oferecer entregas no próprio dia. Este valor é significativo e até crescente em relação ao barómetro anterior.
A conclusão é evidente: a velocidade é importante, mas não é necessariamente viável ou prioritária para todos os modelos de negócio. Para muitas lojas online, pode fazer mais sentido investir em previsibilidade, pontos de recolha, lockers, comunicação clara e opções de entrega ajustadas ao perfil do cliente.
Lockers, pontos de conveniência e Click & Collect ganham força
As opções de entrega Out of Home continuam a ser vistas como uma das principais tendências de crescimento no e-commerce.
O estudo destaca três formatos com elevado potencial:
Lockers de encomendas, pontos de conveniência e Click & Collect.
Estas soluções respondem a uma necessidade cada vez mais evidente: o consumidor quer ter mais controlo sobre quando, onde e como recebe a sua encomenda.
A entrega no domicílio continua relevante, mas já não é a única resposta. Para muitos consumidores, levantar uma encomenda num cacifo, numa loja parceira ou num ponto de recolha pode ser mais conveniente do que esperar em casa por uma entrega.
A opção menos valorizada para crescimento futuro é a entrega no vizinho, o que mostra que nem todas as soluções de conveniência têm o mesmo grau de aceitação.
Entregas gratuitas passam a ser o atributo mais valorizado
Uma das conclusões mais fortes do Barómetro CTT é a valorização das entregas gratuitas.
Segundo o documento, as entregas gratuitas passam a ser o atributo mais valorizado na experiência de entrega, seguidas pela velocidade e pela previsibilidade.
Isto tem implicações diretas para as lojas online. A política de portes já não deve ser tratada apenas como uma questão operacional. É uma decisão de marketing, conversão e experiência do cliente.
O consumidor valoriza não só o preço final, mas também a perceção de transparência. Custos adicionais inesperados no checkout continuam a ser uma das principais razões para abandono de carrinho.
Por isso, a questão para as lojas online não deve ser apenas “devemos oferecer entregas gratuitas?”, mas sim:
A partir de que valor faz sentido oferecer entregas gratuitas sem destruir a margem?
Esta resposta deve ser calculada com base no valor médio de encomenda, margem bruta, custo logístico, taxa de conversão e comportamento dos clientes. Disponibilizamos aqui uma calculadora de portes grátis.
Devoluções sem papel tendem a crescer
As devoluções continuam a ser uma área sensível no e-commerce. O Barómetro CTT mostra um consenso alargado entre os especialistas: as devoluções labelless, sem necessidade de impressão de guias em papel, tenderão a aumentar.
Esta tendência é importante por três razões.
Primeiro, reduz a fricção para o cliente. Segundo, melhora a eficiência operacional. Terceiro, está alinhada com práticas mais sustentáveis, ao reduzir o uso de papel e simplificar processos.
O estudo revela também que os painelistas consideram provável que o número de devoluções aumente e que as devoluções gratuitas tendam a diminuir.
Há aqui uma tensão relevante: os consumidores valorizam conveniência, mas as empresas procuram controlar custos. O futuro das devoluções no e-commerce deverá passar por modelos mais equilibrados, com processos simples, mas economicamente sustentáveis.
IA e Data Analytics são a prioridade de investimento
A conclusão mais expressiva do estudo no domínio tecnológico é inequívoca: Inteligência Artificial e Data Analytics são a principal prioridade de investimento para os e-sellers nos próximos 6 a 12 meses.
Das 47 respostas, 39 consideram IA e Data Analytics como a inovação mais importante entre as áreas sugeridas.
Em sentido contrário, o Metaverso continua a surgir como a inovação menos prioritária para investimento a curto e médio prazo.
Este dado mostra maturidade. As empresas parecem estar menos interessadas em tendências especulativas e mais focadas em soluções com impacto prático: análise de dados, automação, personalização, atendimento ao cliente, segmentação e recomendações de produto.
Onde é que as empresas querem aplicar IA?
Quando o estudo analisa as áreas concretas de aplicação da Inteligência Artificial, duas prioridades destacam-se:
Customer service, através de chatbots e assistentes virtuais, e recomendações personalizadas de produtos.
Estas duas áreas fazem sentido porque estão diretamente ligadas à experiência do cliente e à conversão. Um bom assistente virtual pode reduzir dúvidas antes da compra. Um sistema de recomendação eficaz pode aumentar o valor médio de encomenda e melhorar a descoberta de produto.
Numa segunda linha, o Barómetro identifica a segmentação de clientes como uma área que volta a ganhar destaque.
Já ferramentas ligadas a previsão de vendas, dynamic pricing e smart logistics continuam a ser menos prioritárias para investimento em IA no próximo ano.
Esta hierarquia é reveladora: as empresas estão a começar pelas aplicações de IA mais visíveis e próximas da relação com o cliente, antes de avançarem para modelos mais complexos de previsão, preço e logística.
Sustentabilidade: embalagens recicláveis ganham destaque
No campo da sustentabilidade, o estudo mostra que a utilização de embalagens recicláveis ultrapassa a oferta de produtos sustentáveis, passando a ser a iniciativa mais praticada pelos painelistas.
Isto indica uma abordagem pragmática à sustentabilidade. Para muitas empresas, é mais simples começar pela embalagem do que reformular todo o portefólio de produtos ou criar novos modelos circulares.
Entre as iniciativas analisadas surgem também:
- oferta de produtos sustentáveis;
- venda de produtos em segunda vida;
- serviços de recondicionamento;
- embalagens reutilizáveis;
- entregas com veículos elétricos.
Contudo, o estudo assinala que a oferta de canais de revenda de produtos usados perde força nesta vaga do barómetro.
Isto sugere que, embora a economia circular seja relevante, a sua aplicação prática no e-commerce ainda enfrenta desafios operacionais, comerciais e de posicionamento.
O que significam estes dados para as lojas online?
O Barómetro CTT e-commerce 2026 mostra que o mercado português está a crescer, mas também está mais competitivo, mais exigente e mais profissionalizado.
Para uma loja online, as principais lições são claras.
Em primeiro lugar, o crescimento do e-commerce não dispensa estratégia. O facto de o mercado crescer não garante que todas as empresas cresçam.
Em segundo lugar, a experiência de entrega tornou-se uma variável decisiva. Gratuidade, rapidez, previsibilidade e diversidade de opções podem influenciar diretamente a conversão e a recompra.
Em terceiro lugar, a Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa distante. Está a tornar-se uma prioridade de investimento, sobretudo em atendimento, recomendações e segmentação.
Em quarto lugar, as devoluções precisam de ser mais simples, mas também mais sustentáveis do ponto de vista económico.
Por fim, a sustentabilidade está a entrar no e-commerce por vias práticas: embalagens recicláveis, produtos sustentáveis e novas soluções logísticas.
O e-commerce em Portugal entra numa fase de maior maturidade
O e-commerce português continua a crescer em 2026, mas a fase atual é diferente da fase de expansão inicial. As empresas já não competem apenas por presença online. Competem por conveniência, confiança, eficiência, personalização e capacidade de execução.
O Barómetro CTT mostra um setor mais atento à experiência do cliente, mais consciente dos custos logísticos e mais disponível para investir em tecnologia com aplicação prática.
A mensagem para os e-sellers é clara: o crescimento continua, mas será conquistado por quem conseguir equilibrar preço, serviço, dados, tecnologia e experiência de compra.
Skip to PDF contentPerguntas frequentes
Sim. Segundo o Barómetro CTT e-commerce 2026, 85,1% dos especialistas indicam que o setor onde a sua empresa atua cresceu nas vendas online em 2025 face a 2024.
A maioria dos especialistas acredita que sim. 83% do painel espera crescimento das vendas online no primeiro semestre de 2026.
A principal prioridade é Inteligência Artificial e Data Analytics, consideradas as áreas com maior potencial de investimento nos próximos 6 a 12 meses.
As áreas prioritárias são customer service, com chatbots e assistentes virtuais, e recomendações personalizadas de produtos.
Segundo o Barómetro, os atributos mais valorizados são entregas gratuitas, velocidade e previsibilidade.
O estudo indica que as devoluções gratuitas tenderão a diminuir, enquanto as devoluções sem necessidade de impressão de guias em papel deverão aumentar.
As opções Out of Home, como lockers, pontos de conveniência e Click & Collect, são vistas como tendo maior potencial de crescimento.
A utilização de embalagens recicláveis surge como a iniciativa de sustentabilidade mais praticada pelos painelistas.











