Economia digital em Portugal já pesa 39% da produção nacional

A economia digital já não é um tema lateral no debate sobre o crescimento do país. É uma das suas bases estruturais. Essa é a principal leitura que emerge do Estudo do Impacto da Economia Digital em Portugal 2025, que traça um retrato de um país mais conectado, mais digitalizado e mais capaz do ponto de vista tecnológico, mas ainda longe de transformar todo esse potencial em produtividade, inovação e competitividade distribuídas de forma equilibrada.

O Estudo do Impacto da Economia Digital em Portugal 2025 foi desenvolvido pela ACEPI – Associação da Economia Digital em Portugal, em parceria, pela primeira vez, com a Goingnext e a Porto Business School.

A ACEPI publica este relatório anualmente desde 2009, acompanhando de forma sistemática a evolução da economia digital nacional e o seu impacto na competitividade e no crescimento do país.

Os dados do estudo são suficientemente robustos para afastar qualquer dúvida sobre o peso real do digital na economia portuguesa. A economia digital gera 213 mil milhões de euros em produção, 90 mil milhões de euros em valor acrescentado bruto e sustenta quase 3 milhões de empregos, o que representa 39% da produção nacional, 13% do VAB e 23% do emprego. A receita fiscal associada ascende a 30 mil milhões de euros, confirmando que o digital não é apenas um fator de modernização, mas também um ativo económico com impacto direto nas contas públicas e no crescimento sustentável.

O digital deixou de ser um setor e passou a ser uma infraestrutura

Uma das ideias mais fortes do relatório está precisamente aqui: o digital deixou de poder ser lido como um setor isolado. Hoje funciona como uma infraestrutura transversal, capaz de influenciar a competitividade das empresas, a eficiência do Estado e a qualidade de vida dos cidadãos. O estudo descreve Portugal como uma economia digital em consolidação, com bons níveis de conectividade, progressos relevantes nas competências e uma adesão generalizada às tecnologias de informação em várias esferas da vida económica e institucional. Ao mesmo tempo, sublinha que persistem assimetrias geracionais, territoriais e empresariais que travam o aproveitamento pleno desse potencial.

Este ponto é decisivo para interpretar corretamente os números. O valor gerado pelo digital não resulta apenas das empresas tecnológicas. Resulta também da incorporação de tecnologias digitais no conjunto dos setores económicos. É por isso que o estudo distingue entre o setor pure digital e os setores digital enabled. O primeiro, composto pelas atividades tecnológicas centrais, gera cerca de 40 mil milhões de euros em produção, 17 mil milhões em VAB e cerca de 500 mil empregos. Já os setores digital enabled, isto é, os que integram o digital nos seus processos, representam 173 mil milhões em produção, 73 mil milhões em VAB e 2,5 milhões de empregos. A conclusão é clara: o grande impacto económico do digital não está apenas em “ter tecnologia”, mas em espalhá-la pelo tecido produtivo.

O efeito económico é real e não apenas estatístico

O estudo vai além da fotografia agregada e tenta perceber o efeito líquido da digitalização. É aqui que a análise ganha ainda mais relevância. Cerca de 35% do impacto total corresponde a aumento puro de capacidade produtiva, enquanto 51% resulta de efeitos de substituição, ou seja, da troca de processos tradicionais por práticas digitalizadas mais eficientes. Em termos líquidos, estima-se que a digitalização tenha aumentado o VAB português em 13%, o emprego em 19%, as remunerações em 13% e a receita fiscal em 18%. Isto significa que o digital não está apenas a reorganizar processos: está efetivamente a criar valor económico adicional.

Este é talvez um dos sinais mais importantes do estudo. Durante anos, muitas análises sobre transformação digital ficaram presas à ideia de eficiência, rapidez ou conveniência. Este relatório mostra algo mais profundo: a economia digital já produz efeitos estruturais mensuráveis no rendimento, no trabalho e na base fiscal do país. Não se trata apenas de facilitar tarefas; trata-se de alterar a própria capacidade produtiva da economia portuguesa.

Portugal tem uma base tecnológica forte

No domínio da infraestrutura, Portugal apresenta um desempenho bastante sólido. Entre 2015 e 2024, a taxa de agregados familiares com ligação à Internet passou de 70% para 91%, aproximando-se da média europeia. Na banda larga fixa de alta velocidade, o país destaca-se de forma ainda mais clara: entre 2021 e 2024, a proporção de subscrições acima de 100 Mbps subiu de 83% para 92%, superando significativamente a média da União Europeia, fixada em 72%. No segmento móvel, a evolução também é expressiva: a proporção de população com subscrições ativas de banda larga móvel passou de 80% em 2020 para 103% em 2024, reduzindo de forma substancial a distância face à média europeia.

Estes dados ajudam a perceber por que razão Portugal surge no estudo como um país conectado, dinâmico e com forte capacidade de resposta tecnológica. A infraestrutura existe, está difundida e tem qualidade. O problema, como o próprio relatório sublinha, é que infraestrutura, por si só, não garante maturidade económica. A verdadeira diferença passa pela capacidade de transformar esta base técnica em valor para empresas, cidadãos e administração pública.

5G e data centres: vantagem potencial, retorno ainda em construção

O capítulo do 5G revela bem esta lógica. Portugal passou de ausência de cobertura em 2021 para 99% dos agregados familiares cobertos em 2024, acima da média europeia de 94%. O salto é impressionante e posiciona o país entre os líderes europeus na disponibilização da tecnologia. No entanto, a adoção efetiva continua moderada: apenas 27% da população tem cartões SIM 5G, contra 36% na União Europeia. O estudo aponta como travões o custo dos equipamentos, os tarifários e a limitada perceção de benefício imediato. Em suma, a cobertura já existe; a apropriação económica ainda está a caminho.

A mesma ideia aparece na análise aos data centers. Portugal é descrito como um mercado em transformação profunda, impulsionado por energia renovável, localização estratégica e crescente interesse de investidores internacionais. O estudo destaca a capacidade instalada, a construção em curso e, sobretudo, os projetos previstos para Lisboa e Sines, com o caso do Start Campus a surgir como símbolo do potencial do país para se afirmar como hub digital do sul da Europa. Mas o relatório também deixa um aviso: esta oportunidade só se concretizará se houver políticas coordenadas que garantam disponibilidade técnica, adoção efetiva, acessibilidade e segurança digital.

O grande travão continua a ser o talento

Se a infraestrutura é uma força, as competências digitais continuam a ser uma fragilidade. O estudo é bastante direto neste ponto. Portugal tem vindo a progredir, mas mantém défices claros na formação avançada, na criação de talento especializado e na diversidade das carreiras tecnológicas. O país apresenta níveis sólidos de literacia básica, mas continua com um défice em competências mais avançadas, precisamente aquelas que permitem transformar tecnologia em inovação, decisão e vantagem competitiva.

Esta leitura é central. Não basta ter boa rede, boa cobertura ou serviços públicos online. O retorno económico do digital depende da capacidade de formar pessoas capazes de usar, interpretar, desenvolver e integrar tecnologia em contextos reais. O estudo insiste que a vantagem competitiva futura dependerá menos da existência de infraestrutura e mais da capacidade de converter essa infraestrutura em valor económico por via do conhecimento, da requalificação e da maturidade de gestão.

As PME continuam a ser o ponto sensível da transformação

O relatório também sugere uma leitura particularmente importante para o tecido empresarial português. As empresas estão mais presentes na Internet, aderem mais ao comércio eletrónico e mostram maior abertura à inovação. Mas a transformação produtiva só acontece verdadeiramente nas organizações que integram tecnologias de maior valor acrescentado, como cloud computing, inteligência artificial e automação inteligente. E é precisamente aqui que surgem as limitações, sobretudo nas PME.

Isto significa que a presença digital, por si só, já não chega. Ter website, canais online ou faturação eletrónica é importante, mas insuficiente. O diferencial competitivo passa agora pela integração mais profunda do digital nos processos, na decisão, na logística, no marketing, no serviço ao cliente e na leitura de dados. O estudo é claro ao mostrar que as empresas mais digitais tendem também a ser mais produtivas, resilientes e inovadoras. Portanto, o desafio empresarial em Portugal já não está em “entrar no digital”; está em deixar de o tratar como acessório.

O consumidor português está online, mas isso não resolve tudo

Do lado da procura, o retrato é positivo, embora não homogéneo. O consumidor digital português apresenta níveis elevados de acesso e utilização da Internet, com forte penetração nas faixas etárias mais jovens. No entanto, o estudo chama a atenção para desigualdades no uso avançado das ferramentas digitais, incluindo aprendizagem, participação cívica e interação com serviços públicos. Também no comércio eletrónico, apesar do crescimento sustentado, a difusão continua dependente de confiança digital, literacia financeira e da capacidade de adaptação das pequenas e médias empresas.

Esta conclusão merece atenção porque desmonta uma ilusão comum: não basta haver consumidores online para que a economia digital se expanda automaticamente. É preciso confiança, bons serviços, experiência de compra competente, meios de pagamento sólidos, logística eficiente e empresas capazes de responder a padrões de exigência cada vez mais altos. O digital cresce, mas não cresce sozinho.

O Estado digital é uma das áreas em que Portugal mais se destaca

O relatório reconhece que a administração pública digital é uma das áreas de maior maturidade do ecossistema nacional. Portugal surge como referência europeia em serviços públicos digitais e identidade eletrónica, demonstrando que a digitalização do Estado pode gerar confiança, transparência e simplificação. Ainda assim, o documento lembra que a evolução não é homogénea entre organismos e que a próxima fase terá de reforçar interoperabilidade, cibersegurança e experiência do cidadão.

Esta avaliação é importante porque mostra que o país já provou ser capaz de construir serviços digitais relevantes à escala pública. O desafio agora não é apenas manter a interface digital com o cidadão, mas aprofundar a transformação interna do Estado, tornando-o mais integrado, mais analítico e mais eficiente. Ou seja, o próximo passo passa de “digitalizar serviços” para “digitalizar a máquina pública”.

O problema português já não é o atraso. É a conversão

Talvez a conclusão mais interessante do estudo seja esta: Portugal não aparece como um país atrasado no plano digital. Pelo contrário, distingue-se pela qualidade da infraestrutura, pela maturidade dos serviços públicos digitais e pela adesão crescente de empresas e consumidores às ferramentas online. O verdadeiro problema está noutro ponto: a capacidade de converter essa base em valor económico profundo, distribuído e duradouro.

É por isso que o relatório insiste tanto na redução de assimetrias regionais e setoriais, na transição digital inclusiva e na aposta em competências. As áreas metropolitanas e os setores de serviços avançados tendem a concentrar maior intensidade digital, enquanto outras regiões e atividades mais tradicionais permanecem atrás. Sem corrigir este desequilíbrio, Portugal corre o risco de ter uma economia digital forte no topo e frágil na base.

A principal conclusão do estudo

Em termos práticos, o Estudo do Impacto da Economia Digital em Portugal 2025 deixa uma mensagem simples e forte: Portugal já fez uma parte muito relevante do caminho da digitalização, mas ainda não transformou plenamente essa maturidade em liderança económica alargada. Tem rede, cobertura, serviços, conectividade e sinais claros de modernização. O que ainda falta é transformar essa base em produtividade superior, maior intensidade tecnológica nas PME, mais talento especializado, mais inovação aplicada e mais equilíbrio territorial.

O país já não precisa de provar que consegue digitalizar-se. Precisa de provar que consegue tirar consequência económica séria dessa digitalização. E essa é uma diferença enorme. Porque significa que o debate deixou de ser tecnológico e passou a ser estratégico.

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