A entrega ao domicílio deixou de ser a única resposta certa. Enquanto o estafeta bate a uma porta fechada e regista mais uma tentativa falhada, um número crescente de consumidores portugueses prefere levantar as encomendas quando — e onde — lhes for conveniente: num cacifo aberto 24 horas, numa loja de conveniência ao virar da esquina, num quiosque no caminho para o trabalho.
É este o território do PUDO shipping, o modelo de entrega fora do domicílio que já representa uma fatia significativa do comércio eletrónico europeu e que se afirma, também em Portugal, como uma alavanca direta de conversão, poupança e sustentabilidade para quem gere uma loja online.
O que é o PUDO shipping — e porque é que o termo gera confusão?
PUDO é a sigla inglesa de Pick Up, Drop Off: recolha e entrega. Descreve qualquer modelo de expedição em que a encomenda não segue diretamente para a morada do destinatário, mas para um ponto físico onde este a levanta no momento que preferir. O mesmo local serve, habitualmente, para o fluxo inverso — a devolução —, o que faz do PUDO uma infraestrutura central tanto na entrega como na logística inversa. Na linguagem do setor, estes pontos designam-se também por entrega fora do domicílio, entrega não domiciliária ou, na terminologia internacional, OOH (Out Of Home).
Há, porém, uma armadilha terminológica que convém esclarecer desde já. Além de designar o método, “PUDO” é o nome de uma empresa concreta: uma operadora de cacifos inteligentes fundada em Espanha em 2015, integrada no grupo suíço Kern AG, e considerada pioneira dos lockers no mercado ibérico. Em 2021, a DPD adquiriu 25% do seu capital para reforçar a aposta nas entregas em cacifo. Por outras palavras: quando um comerciante lê “entrega PUDO”, pode estar perante o conceito geral ou perante a marca específica. Este artigo trata sobretudo do método — o que é relevante para a esmagadora maioria das lojas —, sinalizando a empresa sempre que a distinção importa.
Vale ainda separar PUDO de click & collect. Este último refere-se, tipicamente, ao levantamento na própria loja do retalhista ou num ponto por ele designado — é um conceito conduzido pela marca. O PUDO é um conceito de rede da transportadora: os pontos são operados por (ou contratados a) uma transportadora. Na prática, os termos usam-se muitas vezes de forma intermutável na perspetiva do cliente, mas a logística subjacente é distinta.
Como funciona uma entrega PUDO, do checkout à recolha?
O percurso é simples e resume-se a cinco passos:
- No checkout, o cliente seleciona “entrega em ponto de recolha” e escolhe, num mapa, o cacifo ou a loja mais conveniente.
- A loja gera a etiqueta de envio associada a essa transportadora e ao ponto escolhido.
- A transportadora consolida vários volumes numa única paragem, deixando as encomendas no ponto.
- O destinatário recebe uma notificação (SMS ou e-mail) com um código PIN ou uma referência.
- O cliente levanta a encomenda dentro do prazo estipulado, apresentando o código (nos cacifos) ou um documento de identificação (nos pontos assistidos).
Um detalhe operacional que o comerciante nunca deve ignorar é o prazo de recolha. Cada rede define uma janela após a qual a encomenda é devolvida à loja — e essa devolução tem custo. Nos cacifos Locky (CTT), o prazo é de cerca de 5 dias após a notificação; nos Pontos Pack da InPost, é de 8 dias. A regra transversal ao setor situa-se entre 7 e 14 dias, consoante a transportadora. Comunicar este prazo de forma clara ao cliente é a medida mais simples para reduzir a taxa de não recolha.
Importa também reter uma regra técnica essencial: as redes PUDO não são intercambiáveis. Uma encomenda expedida por uma transportadora só pode ser levantada nos pontos dessa mesma transportadora. Mostrar no checkout os pontos de uma rede que não corresponde à transportadora usada gera encomendas impossíveis de entregar. Os pontos apresentados têm de coincidir sempre com o operador que fará o transporte.
Que redes PUDO existem em Portugal?
O mercado português de entrega fora do domicílio amadureceu rapidamente e está hoje estruturado em torno de três grandes ecossistemas.
Collectt e Locky (grupo CTT). A Collectt é a rede Pick & Drop dos CTT, que na Península Ibérica integra mais de 20.000 pontos. Em Portugal, combina as lojas e pontos CTT, os agentes Payshop e mais de 1.000 cacifos Locky. É a rede com maior capilaridade nacional e está diretamente disponível para lojas construídas na plataforma Criar Lojas Online dos CTT. As entregas na rede Collectt cresceram 64% na Península Ibérica no primeiro semestre de 2025, com Portugal a liderar a subida (+84%), num universo de cerca de 900 marcas aderentes.
InPost. A operadora de origem polaca opera em Portugal um modelo híbrido de Pontos Pack (lojas de proximidade) e Lockers (cacifos 24/7). Em 2025 contava com 249 lockers e mais de 2.000 Pontos Pack no país, integrados numa rede europeia de mais de 83.000 pontos OOH em nove mercados. É particularmente forte no segmento das devoluções de moda e das plataformas de segunda mão.
DPD Pickup e PUDO. A DPD combina a sua rede Pickup de lojas de conveniência com os cacifos da empresa PUDO (a tal operadora ibérica participada pela DPD). Um cliente DPD pode, assim, levantar ou devolver encomendas tanto numa loja Pickup como num locker PUDO, nas mesmas condições comerciais. É a via natural para lojas que já expedem com a DPD.
Principais redes PUDO em Portugal
| Rede | Operador | Tipo de ponto | Presença em Portugal | Prazo de recolha | Ideal para |
|---|---|---|---|---|---|
| Collectt / Locky | CTT | Lojas CTT, Payshop e cacifos Locky | +1.000 cacifos + rede CTT nacional | ~5 dias (Locky) | Máxima cobertura nacional; lojas na plataforma CTT |
| InPost | InPost | Pontos Pack + Lockers 24/7 | 249 lockers + >2.000 Pontos Pack | 8 dias (Ponto Pack) | Moda, devoluções e público urbano |
| DPD Pickup / PUDO | DPDgroup | Lojas Pickup + cacifos PUDO | Rede Pickup + lockers PUDO | Consultar transportadora | Lojas que já expedem com DPD |
Os números de pontos referem-se aos dados públicos mais recentes de 2025 e estão em expansão contínua. Confirme sempre a cobertura atual e as condições comerciais junto de cada operador.
Que vantagens traz o PUDO para uma loja online?
Os benefícios do PUDO distribuem-se por três eixos, todos com impacto direto na conta de resultados.
Mais conversão no checkout. A ausência do método de entrega preferido é uma das principais causas de abandono do carrinho: segundo dados do universo Geopost/DPD, 57% dos consumidores online desistem da compra quando não encontram a sua opção de entrega preferida. Oferecer PUDO ao lado da entrega ao domicílio amplia as escolhas e reduce esse atrito — sem obrigar o comerciante a substituir nenhuma opção existente.
Menos custos e menos falhas. Ao consolidar dezenas de entregas num único ponto, o PUDO elimina o custo das tentativas de entrega falhadas — cada morada visitada sem sucesso implica nova deslocação. Um único cacifo ou ponto de conveniência processa muitas vezes mais volumes por paragem do que a entrega porta a porta, o que se traduz em rotas mais eficientes e num custo por encomenda geralmente inferior ao da entrega domiciliária.
Sustentabilidade mensurável. A concentração de entregas reduz de forma significativa as emissões da última milha — o troço mais poluente da cadeia logística. As estimativas do setor apontam para reduções de 13% a 32% de CO₂ por encomenda face à entrega ao domicílio, podendo chegar a cerca de dois terços em redes urbanas densas. Para lojas abrangidas por obrigações de reporte de sustentabilidade (como a diretiva CSRD), estes dados por encomenda deixam de ser apenas argumento de marca para passarem a ser um dado de conformidade.
Do lado da procura, a tendência é clara. De acordo com o CTT e-Commerce Flash Survey, cerca de 25% dos consumidores portugueses já optam por soluções fora de casa — 13% em pontos de conveniência e 12% em cacifos. A entrega ao domicílio continua a ser a mais usada (56%), mas as alternativas ganham terreno. Os principais motivos apontados são o horário alargado (43%), o menor custo (31%), a proximidade (27%) e a comodidade (27%).
Que desafios e limitações deve o comerciante considerar?
O PUDO não é uma solução isenta de fricção, e ignorar os seus limites custa dinheiro.
O mais óbvio é a não recolha. Se o cliente não levanta a encomenda dentro do prazo, esta regressa à loja e gera um custo de devolução. A comunicação proativa do prazo — no e-mail de confirmação, na notificação de chegada e num lembrete a meio da janela — é a defesa mais eficaz.
Segue-se a cobertura desigual. A densidade de pontos varia muito entre o litoral urbano e o interior rural; para clientes fora das grandes áreas metropolitanas, o ponto “mais próximo” pode não ser assim tão próximo. Convém manter sempre a entrega ao domicílio como alternativa.
Há ainda o já referido problema do emparelhamento transportadora–rede: apresentar pontos que não correspondem à transportadora usada resulta em encomendas não entregáveis. Este é um erro de configuração técnica que compensa validar com cuidado.
Por fim, uma parte do público — pessoas com mobilidade reduzida, quem procura receber volumes grandes ou pesados — continuará, legitimamente, a preferir a porta de casa. O PUDO acrescenta opções; não as substitui.
Como implementar o PUDO na sua loja?
Para uma loja em WooCommerce, o caminho tem quatro etapas:
- Escolher a(s) transportadora(s) que oferecem PUDO e negociar o contrato — é o contrato de transporte que dá acesso à rede de pontos. Não é possível encaminhar uma encomenda de uma transportadora para o ponto de outra.
- Ativar o seletor de pontos no checkout, através de um plugin ou integração que apresente o mapa dos pontos da transportadora correta e capture o ponto escolhido pelo cliente.
- Automatizar a etiqueta com a referência do ponto, para que a expedição siga sem intervenção manual.
- Comunicar prazos e instruções de recolha de forma clara, em todos os pontos de contacto pós-compra.
Uma boa prática é começar por uma única rede de forte cobertura nacional — tipicamente a Collectt/Locky ou a InPost — e alargar depois a outras transportadoras à medida que os dados de utilização o justifiquem. O objetivo não é oferecer tudo a todos, mas dar ao cliente uma escolha relevante sem sobrecarregar o checkout.
Perguntas frequentes
Não exatamente. O cacifo (locker) é um dos tipos de ponto PUDO — o automático e autónomo. “Ponto PUDO” é a categoria mais ampla, que inclui também lojas de conveniência, quiosques e balcões assistidos. Todos os cacifos são pontos PUDO, mas nem todos os pontos PUDO são cacifos.
O click & collect refere-se, em regra, ao levantamento numa loja do próprio retalhista. O PUDO usa a rede de pontos de terceiros de uma transportadora. Sobrepõem-se na experiência do cliente, mas a logística é diferente.
A transportadora guarda o volume durante um prazo fixo — geralmente entre 5 e 14 dias, consoante a rede — e, findo esse prazo, devolve-o à loja, com o respetivo custo de devolução.
Nem sempre. Em muitos envios domésticos, o prazo de trânsito é idêntico; muda apenas o local onde a encomenda fica a aguardar levantamento.
Sim. O “D” de PUDO cobre precisamente a entrega/devolução (drop off). O mesmo ponto que serve para recolher costuma servir para devolver, o que torna estas redes especialmente úteis na logística inversa.
Fontes
- Last Mile Experts / nshift — What is PUDO? (2025 e 2026): dados sobre a rede europeia de pontos OOH e preferências de entrega.
- CTT — rede Collectt e cacifos Locky (páginas oficiais e comunicados, 2025).
- Hipersuper / Techenet — expansão da InPost na Península Ibérica e crescimento da rede Collectt (2025).
- Jornal de Negócios / Grande Consumo — investimento da DPD na PUDO (2021).
- CTT e-Commerce Flash Survey e CTT e-Commerce Report 2024 — preferências dos consumidores ibéricos.
- Geopost/DPD — dados sobre abandono de carrinho por ausência do método de entrega preferido.
- Cross-Border Magazine — estimativas de redução de emissões por encomenda em entrega PUDO.











