Durante duas décadas, o comércio eletrónico teve sempre um humano a carregar no botão “comprar”. Essa certeza está a desaparecer. Em 2026, uma fatia crescente das compras online começa a ser desencadeada, comparada e até finalizada por um agente de inteligência artificial — sem que a pessoa chegue a visitar a loja. Assistentes como o ChatGPT, o Gemini, a Alexa e a Perplexity deixaram de ser apenas motores de pesquisa conversacional para se tornarem verdadeiros balcões de venda, capazes de comparar preços, escolher o produto “certo” e concluir o pagamento em nome do consumidor.
A este fenómeno chama-se comércio agêntico (agentic commerce) e está a redesenhar, a grande velocidade, as regras do jogo para qualquer negócio que venda online — da grande marca internacional à pequena loja portuguesa. Este artigo reúne o estado da arte do comércio agêntico à escala global, os movimentos mais recentes das grandes plataformas e o que já está a acontecer em Portugal, para que qualquer responsável por uma loja online perceba o que está em jogo e como se preparar.
O que é, afinal, o comércio agêntico
Comércio agêntico é o termo usado para descrever compras e vendas em que um agente de inteligência artificial atua em nome do utilizador (ou do lojista), executando tarefas como pesquisar produtos, comparar preços, adicionar artigos ao carrinho, negociar condições e finalizar o pagamento — muitas vezes sem intervenção humana em cada passo. Em vez de o consumidor navegar por um site, é o agente que “navega” pela internet, interpreta os catálogos, avalia opções e decide (ou sugere) a compra.
Esta definição é importante porque marca uma diferença essencial: já não se trata apenas de “otimizar para motores de busca”, mas de tornar uma loja legível, indexável e negociável por sistemas automáticos — a chamada otimização para motores de resposta e motores generativos (AEO e GEO), que está a juntar-se ao tradicional SEO como competência indispensável para qualquer equipa de marketing digital.
A OpenAI abriu a porta — e depois travou
Foi a OpenAI quem, em 2025, lançou o tiro de partida com o Instant Checkout, integrado no ChatGPT através do Agentic Commerce Protocol (ACP), desenvolvido em conjunto com a Stripe. A promessa era simples: o utilizador conversa com o ChatGPT, recebe uma recomendação de produto e compra-o sem sair da conversa, com a Etsy, a Shopify e outros parceiros a processar a encomenda do outro lado.
Mas a adoção ficou muito aquém do esperado. Segundo reportagens da CNBC e uma análise da consultora Forrester, apenas cerca de 12 milhões de comerciantes Shopify chegaram a ativar a funcionalidade, e a comissão de 4% cobrada pelo ACP sobre cada transação terá travado a adesão de muitos lojistas. Perante estes números, a OpenAI recuou de forma significativa em março de 2026, passando a direcionar os utilizadores para aplicações dedicadas de retalhistas dentro do próprio ChatGPT, em vez de insistir num checkout nativo universal.
Esta correção de rumo é, por si só, uma lição valiosa: o comércio agêntico não é uma aposta garantida para quem o lança primeiro, e o modelo de comissões e a experiência de compra continuam a ser tão decisivos como a tecnologia.
A Perplexity aproveita a janela de oportunidade
Onde a OpenAI recuou, a Perplexity avançou. Em fevereiro de 2026, a plataforma tornou o seu shopping agêntico gratuito para todos os utilizadores nos Estados Unidos — e não apenas para assinantes Pro —, com checkout processado via PayPal e mais de cinco mil comerciantes ligados através da Shopify, sem cobrar a comissão de 4% que penalizava o modelo da OpenAI. O resultado, de acordo com dados citados pela eMarketer, foi um aumento de cinco vezes nas pesquisas com “intenção de compra” já no primeiro trimestre de 2026.
A Perplexity lançou ainda uma funcionalidade de pesquisa visual, batizada “Snap to Shop”, que permite fotografar um produto e encontrar de imediato onde comprá-lo — outro sinal de como a fronteira entre “pesquisar” e “comprar” está a esbater-se.
Google e Amazon entram em força
A Google não ficou parada. Lançou o chamado “agentic checkout” na Pesquisa Google, no modo IA (AI Mode) e na app Gemini, permitindo comprar diretamente através de retalhistas como a Wayfair, a Chewy ou a Quince, com pagamento via Google Pay e uma funcionalidade que permite dizer ao agente “compra isto quando o preço descer abaixo de X euros”.
Mais relevante ainda foi a criação, em conjunto com a Shopify, do Universal Commerce Protocol (UCP) — um standard aberto que permite a qualquer agente de IA “falar” diretamente com os sistemas de checkout dos comerciantes. Etsy, Wayfair, Target e Walmart juntaram-se como parceiros iniciais, com mais de vinte outras empresas a apoiar publicamente a iniciativa, que deverá expandir-se ao Canadá, à Austrália, ao Reino Unido e até ao YouTube. A Gap anunciou, em março de 2026, que passará a permitir checkout diretamente dentro do Gemini — um sinal claro de que mesmo marcas de moda tradicionais estão a apostar nesta via.
Do lado da Amazon, a resposta chamou-se unificação: em maio de 2026, o assistente de compras Rufus foi fundido com o Alexa+, dando origem ao “Alexa for Shopping”. Os números divulgados são expressivos — utilizadores mensais ativos cresceram 115% e o envolvimento (engagement) disparou 400% ano após ano, gerando já cerca de 12 mil milhões de dólares em vendas anuais incrementais para os 300 milhões de clientes da Amazon. Uma nova função, “Buy for Me”, permite mesmo que o assistente compre produtos fora do ecossistema Amazon, em nome do utilizador.
O dinheiro também precisa de falar “IA”: os novos protocolos de pagamento
Para que um agente de IA possa pagar em nome de alguém com segurança, as redes de cartões tiveram de criar novas camadas de confiança. A Visa lançou o Trusted Agent Protocol, que atribui a cada agente um “Verified Agent ID” e exige um registo de consentimento assinado pelo emissor do cartão. A Mastercard avançou com o Agent Pay e os chamados “Agentic Tokens”, tendo lançado em junho de 2026 uma extensão, o Agent Pay for Machines, pensada para pagamentos totalmente automáticos entre máquinas — sem qualquer intervenção humana no momento da transação. Em paralelo, a Google desenvolveu o AP2 (Agent Payments Protocol), um standard aberto que já reúne mais de sessenta parceiros, incluindo Mastercard, American Express, PayPal, Coinbase e Salesforce.
Estes protocolos resolvem uma pergunta incómoda que o comércio agêntico obriga a fazer: como é que um comerciante sabe que quem está “do outro lado” é um agente autorizado por um cliente real, e não uma fraude automatizada? A resposta da indústria financeira está, por agora, a construir-se em tempo recorde.
E em Portugal?
O mercado português já está a sentir os efeitos, ainda que com um foco inicial nos pagamentos digitais em geral. O sistema Click to Pay, lançado pela Unicre em parceria com a Visa em dezembro de 2025, ultrapassou os dois milhões de euros em transações no e-commerce português entre 1 de janeiro e 28 de maio de 2026, com cerca de mil comerciantes aderentes — dos quais 418 já com pagamentos efetivamente ativos. Um dos argumentos mais fortes a favor da tecnologia é a redução da fraude, que pode chegar a 91% face aos pagamentos tradicionais por número de cartão.
Este tipo de infraestrutura de pagamento simplificado e tokenizado é precisamente o tipo de base técnica sobre a qual os protocolos de comércio agêntico internacionais (Visa Trusted Agent Protocol, Mastercard Agent Pay, Google AP2) se apoiam. Ou seja: à medida que mais lojas portuguesas adotam soluções como o Click to Pay, ficam também tecnicamente mais próximas de poder aceitar, no futuro próximo, pagamentos iniciados por agentes de IA.
O que isto muda para quem tem uma loja online em Portugal
Para o lojista comum, o comércio agêntico ainda não substitui o cliente humano — mas já está a mudar a forma como esse cliente chega à loja. Algumas implicações práticas:
- A ficha de produto passa a ter dois públicos: o comprador humano e o agente de IA que a vai “ler” antes de decidir recomendar ou comprar o artigo. Descrições claras, preços atualizados, disponibilidade de stock em tempo real e dados estruturados (schema markup) tornam-se ainda mais críticos.
- A reputação online conta em dobro: um agente de IA tende a privilegiar marcas com avaliações consistentes, políticas de devolução claras e presença de conteúdo fiável nas páginas — exatamente os critérios que também pesam no SEO tradicional, mas agora avaliados por um sistema automatizado que “lê” a loja inteira antes de decidir.
- A relação direta com o cliente está em risco: se um agente compra em nome do consumidor sem que este visite o site, a marca perde oportunidades valiosas de construir relação, recolher dados próprios (first-party data) e fidelizar. Por isso, cada vez mais lojas estão a investir em programas de fidelização e comunicação direta (email, WhatsApp, newsletters) como contrapeso.
- Os modelos de comissão vão ser negociados marca a marca: o recuo da OpenAI mostrou que uma comissão de 4% pode ser suficiente para travar a adoção de um canal inteiro. Antes de integrar qualquer protocolo de comércio agêntico, vale a pena calcular o impacto real na margem.
- A criação de conteúdo visual e de marketing vai continuar a apoiar-se em IA generativa — desde fotografia de produto a vídeos de anúncio — mas cada vez mais associada à necessidade de transparência sobre o que é gerado por IA, à medida que crescem as disputas legais sobre direitos de autor entre estúdios e gigantes da IA generativa.
Como preparar a loja online para o comércio agêntico
- Auditar os dados estruturados do catálogo (schema.org/Product, preços, stock, avaliações) para garantir que qualquer agente de IA consegue “ler” corretamente a oferta.
- Rever a política de devoluções e as avaliações de clientes, porque são um dos critérios que os agentes de compra usam para recomendar produtos.
- Acompanhar a evolução dos protocolos de pagamento (Click to Pay, tokenização, protocolos agênticos) para não ficar de fora quando as plataformas de IA passarem a suportar checkout direto em Portugal.
- Investir em canais diretos com o cliente (newsletter, comunidade, programas de fidelização) como forma de não depender apenas da descoberta via agentes de terceiros.
- Acompanhar o desempenho da marca dentro dos próprios motores de resposta de IA (ChatGPT, Gemini, Perplexity), verificando com regularidade se a loja é mencionada, com que informação e em que contexto — um exercício cada vez mais equivalente a monitorizar o posicionamento no Google.
Diríamos que o comércio agêntico ainda está a dar os primeiros passos — os recuos da OpenAI mostram isso mesmo — mas a direção é inequívoca: cada vez mais decisões de compra vão passar, pelo menos em parte, por um agente de inteligência artificial. Para quem constrói, faz crescer ou escala uma loja online, ignorar este movimento já não é uma opção. A boa notícia é que os fundamentos continuam a ser os mesmos de sempre — bons produtos, informação clara, confiança e uma boa experiência de compra — só que agora também têm de convencer uma máquina antes de convencerem uma pessoa.
Perguntas Frequentes
O que é o comércio agêntico?
É o modelo de compra e venda em que um agente de inteligência artificial (como o ChatGPT, o Gemini ou a Perplexity) pesquisa, compara e, em muitos casos, finaliza uma compra em nome do consumidor, com o mínimo de intervenção humana em cada etapa do processo.
O comércio agêntico já funciona em Portugal?
Ainda não de forma nativa e generalizada, mas a infraestrutura está a preparar-se: sistemas de pagamento tokenizado como o Click to Pay (Unicre/Visa) já ultrapassaram os dois milhões de euros em transações no e-commerce português em 2026, criando a base técnica sobre a qual assentam os protocolos internacionais de pagamento agêntico.
Que empresas lideram o comércio agêntico a nível mundial?
OpenAI (ChatGPT), Perplexity, Google (Gemini, Pesquisa Google) e Amazon (Alexa for Shopping) são, atualmente, os principais impulsionadores, com a Shopify a atuar como parceira tecnológica de vários deles através de protocolos como o Universal Commerce Protocol.
Uma loja online pequena consegue participar no comércio agêntico?
Sim, mas depende sobretudo da qualidade dos dados do catálogo (descrições, preços, stock, avaliações) e da plataforma de ecommerce utilizada. Lojas com dados estruturados bem organizados e boa reputação online estão mais bem posicionadas para serem “lidas” e recomendadas por agentes de IA.
O comércio agêntico é seguro?
As redes de cartões estão a desenvolver protocolos específicos de segurança — como o Visa Trusted Agent Protocol e o Mastercard Agent Pay — precisamente para verificar que um agente de IA está autorizado por um titular de cartão real antes de processar um pagamento, reduzindo o risco de fraude automatizada.
Qual é o maior risco do comércio agêntico para as marcas?
A perda da relação direta com o cliente. Se um agente de IA compra em nome do consumidor sem que este visite a loja, a marca perde oportunidades de recolher dados próprios, construir fidelização e diferenciar-se apenas pelo produto e pelo preço.
Como pode uma loja otimizar-se para ser recomendada por um agente de IA?
Aplicando princípios de SEO, AEO (otimização para motores de resposta) e GEO (otimização para motores generativos): dados estruturados atualizados, respostas claras e diretas em páginas de produto e de perguntas frequentes, avaliações de clientes visíveis e políticas de devolução transparentes.











