O ecommerce europeu faturou 911 mil milhões de euros em 2025 no segmento B2C, mais 7% do que no ano anterior (+4% descontada a inflação), e deverá chegar aos 961 mil milhões em 2026. Os números são do European E-commerce Report 2026, publicado em setembro pela Ecommerce Europe e pela EuroCommerce, com investigação do Centre for Marketing Innovation da Amsterdam University of Applied Sciences.
O Ecommerce Para Todos analisou as páginas dedicadas a Portugal e a Espanha, as entrevistas às associações nacionais — ACEPI e Adigital — e os rankings europeus por país. A conclusão é clara: a Península Ibérica está na região que mais cresce na Europa, mas os dois mercados avançam a velocidades muito diferentes.
Quantos portugueses e espanhóis compram online?
Em 2025, 61% da população portuguesa entre os 16 e os 74 anos comprou bens ou serviços online. Em Espanha, a proporção foi de 71%. A média da UE-27 manteve-se nos 72% e a da Europa (38 países) subiu para 75%.
A boa notícia para Portugal é a trajetória: desde 2021, o país ganhou 9 pontos percentuais de compradores online (de 52% para 61%), mais do dobro dos 4 pontos ganhos por Espanha (de 67% para 71%). A má notícia é a desaceleração prevista: para 2026, o relatório antecipa apenas mais 1 ponto em Portugal (62%), contra 2 pontos em Espanha (73%).
Compradores online: Portugal recupera, mas Espanha volta a afastar-se
% da população dos 16 aos 74 anos que comprou bens ou serviços online
Fonte: European E-commerce Report 2026 (Ecommerce Europe / EuroCommerce), dados Eurostat. (P) = previsão.
Onde fica Portugal no ranking europeu?
No ranking de compradores online dos 38 países analisados, Portugal surge em 30.º lugar. Considerando apenas a UE-27, é 24.º: só a Roménia (60%), a Itália (56%) e a Bulgária (51%) registam valores inferiores. A Grécia (68%), que em 2021 estava quase empatada com Portugal (54% vs. 52%), está agora 7 pontos à frente.
Espanha, com 71%, ocupa o 14.º lugar na UE-27, empatada com Malta, e fica ligeiramente acima da média do Sul da Europa (63%). Portugal fica abaixo dessa média regional.
Portugal é 24.º em 27 no ranking europeu de compradores online
% da população dos 16 aos 74 anos que comprou online em 2025. UE-27
Média UE-27: 72%
Fonte: European E-commerce Report 2026 (Ecommerce Europe / EuroCommerce), dados Eurostat. Posições empatadas partilham o lugar. Elaboração: Ecommerce Para Todos.
Porque é que o fosso não se explica só pelo acesso à internet?
Uma parte da diferença vem do acesso: 90% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos usam a internet, contra 97% dos espanhóis. Mas o fosso também está na passagem de utilizador a comprador.
Num cálculo do Ecommerce Para Todos a partir dos dados do relatório, 68% dos utilizadores de internet em Portugal compram online, contra 73% em Espanha. Em 2021, a proporção portuguesa era de 63%, o que mostra que o mercado nacional está a converter cada vez mais utilizadores em compradores. Ainda assim, há uma bolsa de cerca de um terço de internautas portugueses que não compra online. Para as lojas, é aí que está o crescimento orgânico: confiança, meios de pagamento familiares, devoluções simples e entregas previsíveis.
Nota metodológica EPT: o relatório usa o indicador europeu (Eurostat), que mede compras online nos 12 meses anteriores. A ANACOM, com base no inquérito do INE, indica que 50% da população comprou online em 2025. A diferença deve-se sobretudo ao período de referência mais curto do inquérito nacional (últimos três meses). Os dois números não são contraditórios, mas não devem ser comparados diretamente.
Como vendem as empresas portuguesas e espanholas?
É aqui que o relatório traz um dos dados mais relevantes para quem gere uma loja online. Entre as empresas com 10 ou mais trabalhadores que vendem online:
56% das portuguesas vendem através de marketplaces, o 5.º valor mais alto da UE, atrás da Lituânia (87%), Itália (65%), Polónia (64%) e Chipre (61%). Em Espanha, a proporção é de 36%.
88% das portuguesas vendem através de site ou app próprios (92% em Espanha);
Por outras palavras, as empresas portuguesas usam os marketplaces com uma intensidade muito superior à das espanholas: 20 pontos de diferença. A leitura tem dois lados. Os marketplaces dão escala e visibilidade a PME com pouca notoriedade, mas trazem dependência de comissões, de algoritmos alheios e da concorrência de vendedores extra-UE. Para as lojas portuguesas, a mensagem é equilibrar: usar o marketplace para aquisição e o canal próprio para margem e relação com o cliente.
Portugal vs. Espanha em números (2025)
| Indicador | Portugal | Espanha | Referência |
|---|---|---|---|
| Utilizadores de internet (16–74) | 90% | 97% | 95% (UE-27) |
| Compradores online (16–74) | 61% | 71% | 72% (UE-27) |
| Compradores online, previsão 2026 | 62% | 73% | 72% (UE-27) |
| Internautas que compram online (cálculo EPT) | 68% | 73% | — |
| Empresas que vendem via site/app próprios* | 88% | 92% | — |
| Empresas que vendem via marketplaces* | 56% | 36% | PT: 5.º na UE |
| Quota do Google na pesquisa | 92% | 95% | — |
| Quota do Bing na pesquisa | 6% | 3% | — |
| IVA, taxa normal | 23% | 21% | — |
*Empresas da UE-27 com 10 ou mais trabalhadores e vendas online. Fonte: European E-commerce Report 2026 (Eurostat, StatCounter). Rácio internautas/compradores: cálculo do Ecommerce Para Todos.
Que tendências apontam a ACEPI e a Adigital?
Portugal: MB WAY, lockers e PME à procura de simplificação
Alexandre Nilo Fonseca, presidente da ACEPI – Associação da Economia Digital, descreve um mercado “resiliente”, mas cada vez “mais competitivo e mais dependente da confiança, da eficiência, da tecnologia e da experiência do cliente”. Os principais pontos:
- Pagamentos: o MB WAY continua a ser uma das tendências mais importantes. Segundo a SIBS, na Páscoa de 2026 as operações com MB WAY cresceram 36% e o valor 46% face à Páscoa de 2025. Cartões, MB WAY, referências Multibanco e carteiras digitais continuam a ser os métodos mais relevantes. Os custos de pagamento, sobretudo prevenção de fraude, chargebacks e taxas de gateway, preocupam as PME.
- Logística: forte desenvolvimento das entregas fora de casa (lockers e pontos pick-up/drop-off), com a CTT a manter-se como operador de referência e a DPD e outros a expandirem as redes. A concorrência é mais forte nas cidades; nas ilhas e zonas rurais, cobertura, custo e prazos continuam a ser um desafio.
- Regulação: as políticas são “positivas na intenção, mas mistas no impacto prático”. A meta europeia de reduzir a carga administrativa em 25% para as empresas e 35% para as PME é relevante para um tecido empresarial dominado por PME, mas ainda não se traduziu em alívio visível. A ACEPI pede IVA mais simples, regras de conformidade de produto mais claras e venda transfronteiriça facilitada.
- IA: a IA agêntica está numa “fase inicial” em Portugal. Os usos imediatos são o apoio ao cliente, as recomendações, a otimização de campanhas, o pricing dinâmico, a deteção de fraude e a geração de conteúdos.
Espanha: regulação mais exigente do que Bruxelas
Diego Carretero López, secretário-geral da Associação Espanhola de Ecommerce e da Adigital, faz um alerta claro: as iniciativas nacionais espanholas vão frequentemente “além do que as leis europeias exigem”. Os exemplos interessam a qualquer loja portuguesa que venda para Espanha:
- A Lei de Atendimento ao Cliente, aprovada em dezembro de 2025, impõe às grandes empresas e plataformas digitais que 95% das chamadas sejam atendidas em três minutos e que as reclamações sejam resolvidas em 15 dias úteis, com auditorias externas anuais.
- O anteprojeto de Lei do Consumo Sustentável, ainda em discussão, prevê mais 12 meses de garantia, somados aos três anos que já vigoram em Espanha, e obrigações de peças sobressalentes durante 10 anos. O período de adaptação previsto é de apenas 20 dias.
- Pagamentos: segundo o Banco de España, as transações não-cash cresceram 8,5% no primeiro semestre de 2025, até 9,4 mil milhões de operações. Os cartões representam 65,7% das transações e há cerca de 2,4 cartões por pessoa. O peso dos pagamentos online nas transações diárias dos consumidores subiu de 8% (2019) para 22% (2024).
- Logística: a CNMC registou um recorde de 1216 milhões de envios de encomendas em 2024 (+20%). O mercado tem mais de 4300 operadores registados e os Correos detêm apenas 17,5% das encomendas. 13,6% das encomendas de marketplaces já são entregues em pontos de conveniência e 3,8% em lockers.
- Mercado: segundo a CNMC, o ecommerce em Espanha faturou 28 346 milhões de euros no 2.º trimestre de 2025, mais 22,6% em termos homólogos.
O que significa isto para uma loja online portuguesa?
1. Ainda há margem para crescer em casa. Com 61% de compradores online, Portugal está 11 pontos abaixo da média da UE-27. Esses consumidores não são adquiridos com mais tráfego, mas com mais confiança: MB WAY e Multibanco no checkout, prazos de entrega claros, devoluções fáceis e prova social.
2. Espanha é o mercado de expansão natural, mas com regras próprias. Um mercado com 71% de compradores online, onde a Adigital denuncia uma regulação “além de Bruxelas”. Antes de vender para Espanha, reveja garantias, atendimento ao cliente e informação de sustentabilidade. O checkout deve priorizar cartões e carteiras digitais, não o MB WAY.
3. Reduza a dependência de marketplaces. 56% das empresas portuguesas vendem em marketplaces. Com o fim da isenção aduaneira de 150 € para importações de países terceiros, em julho de 2026, a concorrência de baixo custo extra-UE tende a ficar mais equilibrada. Esta é uma boa altura para reforçar o canal próprio.
4. Não ignore o Bing. Em Portugal, o Bing tem 6% de quota na pesquisa, o dobro de Espanha (3%). Para campanhas de pesquisa paga e para a visibilidade em assistentes de IA que usam o índice da Microsoft, é uma fatia que muitos concorrentes ignoram.
5. Logística fora de casa já é o padrão. Tanto a ACEPI como a Adigital identificam lockers e pontos de recolha como a infraestrutura que mais cresce. Oferecer entrega PUDO no checkout deixou de ser diferenciação.
Perguntas frequentes
Quantos portugueses compram online em 2025?
Segundo o European E-commerce Report 2026, 61% da população portuguesa entre os 16 e os 74 anos comprou bens ou serviços online em 2025. A previsão para 2026 é de 62%.
Portugal está acima ou abaixo da média europeia no ecommerce?
Abaixo. A média da UE-27 é de 72% de compradores online e a da Europa (38 países) é de 75%. Portugal (61%) ocupa o 24.º lugar entre os 27 Estados-Membros.
Quantos espanhóis compram online?
71% da população espanhola entre os 16 e os 74 anos comprou online em 2025. O relatório prevê 73% em 2026, acima da média da UE-27.
Porque é que a ANACOM indica 50% e o relatório europeu 61%?
Os indicadores têm períodos de referência diferentes. O valor europeu (Eurostat) considera compras nos últimos 12 meses. O inquérito nacional do INE, citado pela ANACOM, considera um período mais curto. Os dois números são válidos, mas não são diretamente comparáveis.
As empresas portuguesas vendem mais em marketplaces do que as espanholas?
Sim. 56% das empresas portuguesas com vendas online usam marketplaces (5.º valor mais alto da UE), contra 36% em Espanha.
Qual o método de pagamento mais relevante no ecommerce português?
O relatório destaca o MB WAY como uma das principais tendências. As operações cresceram 36% na Páscoa de 2026, segundo a SIBS. Cartões, referências Multibanco e carteiras digitais continuam igualmente relevantes.
Quanto vale o ecommerce B2C europeu?
911 mil milhões de euros em 2025 (+7%), com previsão de 961 mil milhões em 2026. O Sul da Europa representa 22% do total e foi a região com maior crescimento real (+8%).
O relatório indica o volume de negócios do ecommerce em Portugal?
Não na versão pública (Light Version). Os valores de faturação por país estão reservados aos membros da Ecommerce Europe e da EuroCommerce e aos decisores políticos.
Fontes e referências
- Ecommerce Europe, EuroCommerce & Amsterdam University of Applied Sciences — European E-commerce Report 2026 (Light Version), setembro de 2026: pp. 2, 6–8, 11–12 (visão geral europeia e rankings por país), p. 90 (Sul da Europa), pp. 99–101 (Portugal; entrevista a Alexandre Nilo Fonseca, ACEPI), pp. 102–106 (Espanha; entrevista a Diego Carretero López, Adigital). Dados de base: Eurostat, StatCounter, Statista, DataReportal.
- CNMC — El comercio electrónico alcanzó en España los 28.300 millones de euros en el segundo trimestre de 2025 (cnmc.es).
- SIBS Analytics — Consumo na Páscoa 2026 cresce 16% em Portugal com forte impulso do MB WAY (período de 2 a 5 de abril de 2026).
- ANACOM — 50% da população em Portugal efetuou compras online em 2025 (com base no Inquérito à Utilização de TIC nas Famílias, INE).
- Reforma do Código Aduaneiro da União — eliminação da isenção de direitos aduaneiros para remessas até 150 € (julho de 2026).
Os cálculos de taxa de conversão utilizador → comprador e os rankings por posição são elaboração do Ecommerce Para Todos a partir dos dados do relatório.











